Aproveitei este tempo de férias para ir com o meu filho mais novo visitar o submarino Barracuda, em Cacilhas. E uma das coisas que me surpreendeu foi a longevidade do submarino, que navegou até 2010.

Ora, 2010 não foi assim há tanto tempo. Já tínhamos Google Maps, GPS, Facebook, Messenger, Skype, YouTube e smartphones e, nesse mesmo ano, eu estava na Renascença preocupado com o website e com a emissão online da rádio (embora, muitos anos antes, António Sala já tivesse feito uma emissão da Renascença a bordo de um submarino da Marinha. Eu estava preocupado em levar a rádio para a Internet; ele tinha-a levado para debaixo de água — mas esse não é o tema deste texto).
Dentro do Barracuda, não vi um monitor com teclado, um 386, um 486 ou um Pentium perdido num canto. Vi mapas em papel, uma máquina de escrever e, por todo o lado, manivelas, alavancas, válvulas, interruptores, botões, mostradores com ponteiros e dezenas de instrumentos que eu não fazia a mínima ideia de como interpretar.
Claro que havia tecnologia sofisticada — sonar, radar e muitos outros sistemas que desconheço — mas a sensação com que fiquei é que praticamente tudo dependia de alguém saber exatamente o que estava a fazer.
E houve outra coisa que me impressionou: o isolamento que seria estar ali.
Debaixo de água não há janelas, não há dia nem noite, não há sol a nascer ou a pôr-se, não há sequer aqueles pequenos sinais que nos fazem perceber naturalmente que as horas estão a passar. Claro que eles sabiam que horas eram, havia turnos e rotinas, mas uma coisa é saber que são três da tarde e outra é o nosso corpo perceber que são três da tarde.
O contacto com o exterior era também muito diferente daquele a que hoje estamos habituados. Não era inexistente, porque os submarinos tinham sistemas de comunicação, mas não havia obviamente nada parecido com aquilo que hoje entendemos por estar permanentemente contactável, com um telemóvel no bolso, mensagens a chegar, notícias, redes sociais e o inevitável scroll infinito.
E isto torna ainda mais interessante pensar nas pessoas que trabalhavam ali.
Num submarino com dezenas de homens, debaixo de água durante dias ou semanas, não bastava cada um saber operar a sua parte da máquina. Era preciso confiar que todos os outros também sabiam exatamente o que estavam a fazer. A tecnologia, o conhecimento, a responsabilidade, a liderança e o espírito de equipa estavam todos ligados porque, naquele contexto, um não funcionava verdadeiramente sem os outros.
Mas talvez por eu gostar tanto de tecnologia, houve uma ideia que me ficou particularmente desta visita: no Barracuda, a complexidade estava toda à vista.
Bastava olhar para aqueles painéis para perceber que estávamos perante uma máquina extraordinariamente complexa e que era preciso muito conhecimento para a operar.
Hoje acontece precisamente o contrário.
Grande parte do trabalho que fazemos em tecnologia consiste em esconder essa complexidade. Num bom website, numa aplicação ou num serviço digital, o utilizador não precisa de perceber o que acontece no servidor, como os sistemas comunicam entre si, onde estão os dados ou quantas decisões foram necessárias para que aquele botão faça exatamente aquilo que espera.
Aliás, quanto melhor for o trabalho, menos dessa complexidade deverá chegar a quem utiliza o produto.
E agora, com a inteligência artificial, essa distância entre a complexidade que existe por baixo e a simplicidade que vemos à superfície tornou-se ainda maior. Escrevemos uma frase numa caixa de texto e, segundos depois, recebemos o resultado de processos extraordinariamente complexos que não vemos e, na maioria dos casos, nem compreendemos.
Isso é uma enorme conquista tecnológica, mas cria também uma ilusão que no Barracuda era impossível ter: a de confundirmos facilidade de utilização com simplicidade daquilo que está por baixo — ou, pior ainda, facilidade de utilização com conhecimento.
Talvez por isso tenha saído de lá menos impressionado com a tecnologia do Barracuda do que com os homens que conseguiam operá-la. Porque ali a máquina não escondia aquilo que exigia das pessoas: conhecimento, experiência, atenção, responsabilidade e confiança em quem estava ao lado.
E, pensando bem, há aqui uma boa descrição de grande parte do trabalho que faço hoje.
Quando desenho uma experiência digital ou desenvolvo uma solução, uma parte importante do trabalho consiste precisamente em perceber a complexidade da tecnologia, do negócio e das necessidades das pessoas para que quem está do outro lado não tenha de lidar com ela.
Simplificar não é fazer desaparecer a complexidade. É compreendê-la suficientemente bem para a colocar no sítio certo.
Talvez seja por isso que, depois de tantos anos a trabalhar com tecnologia e de uma visita a um submarino concebido nos anos 60, tenha saído de lá a pensar menos nas máquinas e mais nas pessoas que sabem o que fazer com elas.