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Quando aquilo que sabemos fazer deixa de limitar aquilo que conseguimos imaginar

Durante muitos anos, a distância entre ter uma ideia e conseguir concretizá-la era também a distância entre aquilo que imaginávamos e aquilo que tecnicamente sabíamos fazer. A IA está a encurtar essa distância de uma forma que só comecei verdadeiramente a perceber quando decidi transformar uma pequena impressora térmica, oferecida pelo meu filho, numa coisa para a qual nunca tinha sido pensada.

Escrito com ❤️ a

4 de Setembro, 2026

Quando comecei a trabalhar para a Web, no início dos anos 2000, havia uma distinção bastante clara entre designers e programadores — e havia depois alguns de nós que, por necessidade, curiosidade ou simples teimosia, tentávamos fazer as duas coisas. Eu pertencia a esse segundo grupo.

Isso tinha uma vantagem evidente: conseguia pegar numa ideia e levá-la bastante mais longe sem depender permanentemente de outra pessoa. Desenhava, abria o editor, escrevia HTML, CSS, algum JavaScript e, com maior ou menor elegância, fazia acontecer.

Mas havia um problema menos evidente, do qual só muito mais tarde me tornei verdadeiramente consciente: eu desenhava aquilo que sabia programar. Ou, pelo menos, aquilo que acreditava conseguir programar.

Uma ideia podia começar ambiciosa, mas, algures entre o papel e o browser, aparecia inevitavelmente a pergunta: “Como é que vou fazer isto?”. E, nesse momento, começava uma negociação silenciosa entre aquilo que eu achava que devia existir e aquilo que os meus conhecimentos técnicos me permitiam construir. Muitas vezes ganhava a segunda opção.

Ao longo dos anos fui aprendendo mais, apareceram melhores ferramentas, bibliotecas, frameworks, WordPress, APIs, serviços cloud, no-code, low-code e uma sucessão interminável de tecnologias destinadas, de uma forma ou de outra, a encurtar essa distância.

Mas a fronteira continuava lá — até que a IA começou a mudar não apenas as ferramentas que tenho à disposição, mas a própria relação entre aquilo que consigo imaginar e aquilo que sou capaz de construir. Percebi a dimensão dessa mudança recentemente, e de uma forma bastante improvável, por causa de uma pequena impressora térmica que o meu filho mais novo me ofereceu no meu aniversário.

Uma impressora à procura de uma função

É uma daquelas pequenas impressoras Bluetooth que se vendem na ALE-HOP, cabem na mão, imprimem em papel térmico e vêm acompanhadas por uma aplicação cheia de modelos, desenhos, fotografias, listas e outras coisas divertidas para imprimir.

Naturalmente, passei os primeiros tempos a fazer precisamente isso: imprimi fotografias, experimentei desenhos, testei tipos de letra, escrevi umas coisas tontas para fazer rir à mesa do almoço, apenas porque era divertido carregar num botão no telefone e ver, alguns segundos depois, sair aquela pequena tira de papel.

E depois aconteceu aquilo que normalmente me acontece com estes objetos: comecei a pensar no que mais poderia fazer com ele.

A impressora era pequena, não precisava de tinta, podia ficar permanentemente em cima da secretária e o papel que produzia tinha uma qualidade quase efémera: servia para hoje e amanhã podia ir para o lixo.

Então pensei: e se, todas as manhãs, ela imprimisse o meu dia? Não uma agenda completa, muito menos outra aplicação ou mais uma notificação no telefone. Apenas uma pequena tira de papel com o calendário daquele dia, as tarefas mais importantes e, talvez, algumas informações úteis; um pequeno boletim diário que pudesse arrancar da impressora, pousar ao lado do teclado ou meter no bolso. E queria que acontecesse sozinho, sem qualquer intervenção.

À primeira vista, parecia uma ideia bastante simples. Não era.

O problema de não saber fazer

Eu não sabia comunicar diretamente com aquela impressora. Não fazia ideia de que protocolo utilizava, como enviava os dados por Bluetooth, como esperava receber uma imagem ou sequer se seria possível fazê-lo sem passar pela aplicação oficial.

Há alguns anos, provavelmente teria pesquisado durante algum tempo, encontrado documentação incompleta, descoberto que precisava de conhecimentos que não tinha e chegado à conclusão perfeitamente racional de que não valia a pena investir vários dias a aprender uma tecnologia apenas para fazer uma pequena impressora imprimir a minha agenda.

Desta vez, abri o ChatGPT e comecei a fazer perguntas.

Não pedi “faz-me uma aplicação para imprimir a minha agenda”. Começámos muito antes disso: descobrir o dispositivo, perceber como comunicava, testar bibliotecas, executar comandos, observar resultados, voltar atrás e experimentar outra hipótese.

A certa altura apareceu Python. Depois Bluetooth. Depois imagens. Depois APIs e calendários.

Eu não me tornei, durante esse processo, especialista em nenhuma destas coisas, mas passei a ter uma forma de atravessar territórios técnicos que, anteriormente, teriam constituído uma barreira suficientemente alta para me fazer abandonar a ideia.

Até que, depois de algumas tentativas, a impressora finalmente imprimiu qualquer coisa que não tinha vindo da aplicação oficial — o típico “Teste” saiu no papel e, naquele instante, esse pequeno sucesso foi suficiente para mudar completamente a natureza do problema: a pergunta deixou de ser “será que consigo imprimir?” e passou a ser “então, o que é que eu quero imprimir?”.

384 pixels

Foi nesse momento que o problema deixou de ser apenas técnico e voltou a ser um problema de design, porque, ultrapassada a dificuldade de comunicar com a impressora, havia agora que descobrir como organizar e tornar útil toda aquela informação num suporte com apenas 384 pixels de largura.

Nesse espaço precisava de existir uma hierarquia suficientemente clara para que eu conseguisse olhar para uma pequena tira de papel e perceber rapidamente o meu dia. Era preciso decidir tamanhos de letra, espaçamentos, separadores, alinhamentos, densidade de informação, o que merecia destaque e aquilo que simplesmente não cabia.

E, como qualquer designer sabe, o problema raramente é desenhar o caso perfeito: é descobrir o que acontece quando o calendário tem um compromisso ou quando tem oito, quando uma descrição ocupa uma linha ou ocupa três, quando não há tarefas ou quando há demasiadas.

Começaram a surgir templates: um para o calendário, outro para as tarefas, outros para diferentes blocos de informação. Depois foi necessário juntá-los, até chegarmos a uma imagem construída automaticamente a partir da informação real daquele dia e preparada especificamente para os 384 pixels da impressora.

Espera! A impressora adormece…

A certa altura, tinha praticamente tudo a funcionar: o sistema conseguia obter a informação, processá-la, gerar os diferentes elementos, compor o boletim e enviá-lo para a impressora, pelo que faltava apenas automatizar o processo para que, todos os dias, a determinada hora, tudo acontecesse sem qualquer intervenção e o boletim simplesmente aparecesse impresso.

Parecia perfeito, até me lembrar de um pequeno detalhe: a impressora entra em standby. Podia ter escrito o melhor código do mundo, criado o boletim mais bonito de sempre e programado tudo para acontecer às 7h30; se a impressora estivesse tranquilamente a dormir desde a noite anterior, nada daquilo serviria para grande coisa.

Foi um daqueles momentos simultaneamente irritantes e divertidos em que percebemos que resolvemos impecavelmente o problema errado, mas resolver o standby acabou por ser também um dos momentos em que melhor compreendi o que estava realmente a acontecer ao longo deste projeto.

A IA tinha-me permitido entrar em territórios técnicos onde, sozinho, provavelmente não teria entrado: ajudou-me a escrever e corrigir código, a compreender bibliotecas que desconhecia, a interpretar erros, a experimentar diferentes formas de comunicar com a impressora e a transformar dados vindos de várias fontes numa imagem que aquele pequeno objeto conseguia finalmente imprimir. Mas havia uma parte do processo que continuava necessariamente do meu lado da secretária.

A IA não viu a impressora imprimir, não deixou passar uma noite para descobrir que entretanto ela tinha adormecido, não pegou numa das primeiras tiras de teste e percebeu que a letra estava demasiado pequena, nem reparou que determinada informação que parecia perfeitamente organizada no ecrã se tornava confusa quando comprimida em 384 pixels de papel térmico. Para descobrir essas coisas foi preciso imprimir, olhar, experimentar, alterar, voltar a imprimir, usar o resultado, encontrar o problema seguinte, regressar ao código, fazer novas perguntas e experimentar outra vez.

Foi também uma pequena demonstração de como é enganadora a ideia de que, num produto, 90% do valor está na ideia e os restantes 10% são apenas execução. Neste caso, a ideia inteira cabia numa frase: “Quero que esta impressora me dê automaticamente o meu dia todas as manhãs.” Todo o resto era o produto.

Era descobrir como falar com uma impressora que, à partida, só queria comunicar com a aplicação do fabricante; perceber o Bluetooth; chegar ao calendário e às tarefas; decidir que informação merecia aparecer e qual devia ficar de fora; desenhar uma hierarquia que funcionasse em apenas 384 pixels; perceber o que acontecia nos dias com dois compromissos e nos dias com dez; compor automaticamente os diferentes elementos; conseguir imprimi-los sem intervenção; automatizar todo o processo e, quando tudo parecia finalmente resolvido, descobrir que a impressora tinha o incómodo hábito de adormecer.

E depois voltar atrás.

Porque é precisamente nessa sucessão de decisões, tentativas, erros, descobertas e pequenos avanços — naquele movimento constante entre imaginar, construir, testar, perceber o que ainda não está certo e tentar outra vez — que uma ideia vai deixando de existir apenas na nossa cabeça e começa, pouco a pouco, a ganhar forma no mundo real.

Até que chega um momento em que já não há código para corrigir, comandos para testar ou mais uma hipótese para experimentar: chego à secretária, olho para aquela pequena impressora oferecida no aniversário e vejo sair uma tira de papel com o meu calendário, as minhas tarefas, o meu dia, exatamente como o tinha imaginado quando tudo isto não passava de uma ideia um pouco absurda.

E há poucas coisas tão satisfatórias como ver uma coisa que só existia na nossa cabeça passar, finalmente, a existir no mundo.

A fronteira mudou

A parte mais interessante desta experiência talvez nem seja a impressora, mas aquilo que ela me mostrou sobre a forma como hoje conseguimos passar de uma ideia à sua concretização. Se tivesse pensado nisto há vinte anos, provavelmente teria começado exatamente da mesma maneira — “era engraçado se isto imprimisse automaticamente o meu dia” —, mas logo a seguir surgiria uma pergunta inevitável: “Eu sei fazer isto?”. E a resposta seria, muito provavelmente, não.

Não porque fosse impossível, nem sequer particularmente extraordinário do ponto de vista tecnológico; certamente haveria alguém capaz de o fazer. O problema era outro: entre aquilo que eu conseguia imaginar e aquilo que sabia construir existia uma distância suficientemente grande para tornar pouco razoável o tempo que teria de investir apenas para descobrir se uma ideia tão pequena podia funcionar.

Durante muitos anos trabalhei dentro dessa distância. Ser um designer que também programava dava-me a enorme vantagem de conseguir executar muitas das minhas próprias ideias, mas trazia consigo uma limitação menos evidente: sem dar por isso, acabava muitas vezes por desenhar aquilo que sabia programar. A técnica não servia apenas para concretizar o design; estabelecia também, silenciosamente, as fronteiras dentro das quais eu me permitia imaginar.

Hoje posso começar de outra maneira. Posso perguntar primeiro “o que é que eu gostaria que isto fizesse?” e deixar o “como” para depois. A IA não eliminou o “como” — esta pequena experiência teve uma quantidade considerável de “como” —, mas permitiu-me atravessá-lo sem que cada nova barreira técnica se transformasse necessariamente no fim da ideia. Não me tornei especialista em Python, Bluetooth ou protocolos de impressão; tive, isso sim, acesso ao conhecimento necessário para entrar nesses territórios, experimentar, compreender o suficiente para tomar a decisão seguinte e continuar.

E isso altera profundamente aquilo que uma pessoa curiosa consegue fazer, sem significar que o conhecimento deixou de importar ou que a IA substitui experiência, gosto, julgamento ou competência. Alguém continua a ter de imaginar o que ainda não existe, decidir o que vale a pena construir, olhar para o resultado e perceber que não está suficientemente bom ou, simplesmente, reparar que a impressora adormeceu. Essa parte continua a ser nossa.

Talvez seja precisamente aí que esteja a mudança que mais me interessa. Há vinte anos, aquilo que eu sabia fazer estabelecia uma fronteira relativamente próxima daquilo que conseguia construir e, inevitavelmente, condicionava também aquilo que me permitia imaginar; hoje, essa fronteira está muito mais longe. A IA não precisa de fazer por mim aquilo que já sei fazer para ser transformadora: basta permitir-me avançar por territórios que ainda não conheço e descobrir, pelo caminho, o conhecimento de que preciso para dar o passo seguinte.

Durante muito tempo aprendi a desenhar dentro dos limites daquilo que conseguia programar. Agora posso voltar a começar pela ideia, levá-la mais longe do que os meus conhecimentos técnicos me permitiriam e descobrir o resto enquanto a construo.

E talvez seja esta a possibilidade verdadeiramente entusiasmante que a IA está a colocar nas mãos de quem continua a ter curiosidade para imaginar coisas que ainda não existem: se conseguimos sonhar, estamos cada vez mais perto de conseguir construir.

O autor

Pedro Miguel Martins presta serviços independentes de strategic design & digital praxis para organizações que precisam de manter os seus websites, plataformas digitais e decisões tecnológicas alinhados com a evolução real do negócio.

A sua prática combina consultoria, design, desenvolvimento e implementação em WordPress e WooCommerce, ajudando empresas e instituições a transformar decisões, necessidades operacionais e objetivos de comunicação em soluções digitais concretas, coerentes e sustentáveis.

O foco está na continuidade: perceber o que o website deve fazer, corrigir o que deixou de acompanhar a organização e garantir que a presença digital não fica dependente de intervenções pontuais, dispersas ou sem responsabilidade clara.

A proposta de valor assenta numa colaboração direta, com responsabilidade integral, visão estratégica e um único ponto de contacto ao longo de todo o processo.

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