A Criatividade e os seus mitos

Se é verdade que muitas vezes olhamos com algum assombro para os resultados da criatividade, também é certo que este tema está envolto de mitos populares que muitas vezes nos aprisionam e não permitem que o pensamento criativo flua.

Escrito com ❤️ a

24 de Outubro, 2017

A criatividade tem-me acompanhado toda a vida. Em criança, nas brincadeiras, nos desenhos, nos Legos, imaginando todo o tipo de coisas, mundos, personagens e fantasias. Mas também em adulto, pois é com ela que conto no meu trabalho e no dia a dia. Tenho uma enorme admiração pela criatividade – às vezes da minha, a maior parte das vezes dos outros – pois ela é a ignição que dá à luz as ideias, desde as mais belas e até às mais toscas. Não importa.

A criatividade é uma bonita qualidade que todos possuem em diferentes quantidades e formas. Estou convicto que pode ser exercitada – tal como um músculo – e que quanto mais a usamos, mais facilmente ela vem ao de cima. Para uns manifesta-se de forma mais artística enquanto outros a usam para resolução de problemas.

Não é por acaso que a humanidade admira a criatividade e os criativos, desde a fundação dos tempos até aos dias de hoje e em múltiplas áreas, que passam desde as artes, design, publicidade, literatura, política e engenharia, só para citar algumas.

Há quem defenda que a criatividade produz-se através da interação entre os pensamentos de uma pessoa e o contexto sociocultural-cultural; naturalmente da própria personalidade individual; e, por se tratar de uma função da mente humana, por meio dos estímulos externos e internos.

São tantas as definições de criatividade, que precisamos de todas para abrangermos todos os aspectos:

  • “o termo pensamento criativo tem duas características fundamentais, a saber: é autónomo e é dirigido para a produção de uma nova forma” (Suchman, 1981)
  • “criatividade é o processo que resulta num novo produto, que é aceite como útil, e/ou satisfatório por um número significativo de pessoas em algum momento no tempo” (Stein, 1974)
  • “criatividade representa a emergência de algo único e original” (Anderson, 1965)
  • “criatividade é o processo de tornar-se sensível a problemas, deficiências, lacunas no conhecimento, desarmonia; identificar a dificuldade, buscar soluções, formulando hipóteses a respeito das deficiências; testar e voltar a testar todas as hipóteses; e, finalmente, comunicar os resultados” (Torrance, 1965)
  • “um produto ou resposta serão julgados como criativos na extensão em que a) são novos e apropriados, úteis ou de valor para uma tarefa e b) a tarefa é heurística e não mecânica” (Amabile, 1983)

Esta introdução vai longa e ainda não disse ao que vem este texto. Se é verdade que muitas vezes olhamos com algum assombro para os resultados da criatividade, também é certo que este tema está envolto de mitos populares que muitas vezes nos aprisionam e não permitem que o pensamento criativo flua.

Vou seguir à boleia do livro “The Myths of Creativity: The Truth About How Innovative Companies and People Generate Great Ideas” de David Burkus. Eu não li o livro (embora tenha ficado curioso), mas, no entanto, vou usar os 10 mitos que lista o índice e desenvolver as minhas próprias ideias.

  1. O mito do momento Eureka! Todos conhecemos a famosa exclamação atribuída ao matemático grego Arquimedes de Siracusa, normalmente pronunciada por alguém que acaba de encontrar a solução para um problema difícil. Esta expressão é muitas vezes compreendida como se a ideia surgisse do nada! Mas não há ideias vindas do nada. Elas são o resultado do duro trabalho de ruminar um problema na busca da solução.
  2. O mito da hereditariedade. São muitas as pessoas que creem que a habilidade criativa é uma característica inerente do seu património genético. Se é verdade que há pessoas que parecem que nasceram com enorme capacidade criativa, também é certo que a criatividade pode ser ensinada, da mesma forma que aprendemos um novo idioma ou um instrumento musical: praticando insistentemente. Se lhe for apresentado um problema e decidir resolvê-lo de forma original ou fora do comum, então o que está a fazer é a praticar a criatividade.
  3. O mito da originalidade. A originalidade não existe. Por vezes lutamos incessantemente na busca utópica de uma ideia original, quando na realidade, uma ideia original é a combinação das ideias de terceiros, às quais fazemos adaptações e ajustes, e cujo resultado representa uma inovação.
  4. O mito do especialista. É comum julgar-se que para problemas específicos é necessário pedir a resolução àqueles que melhor dominam a matéria. Mas, por vezes a visão de quem está de fora pode resultar numa melhor solução, pois não têm nenhum tipo de ideia pré-concebida nem informação que limite o olhar. Veja estes exemplos, onde gamers foram capazes de resolver problemas aos quais cientistas procuravam resposta há dezenas de anos.
  5. O mito do incentivo. O mito do especialista vem muitas vezes agarrado ao mito do incentivo, que diz que são necessários largos estímulos financeiros e outros, para aumentar a criatividade e a inovação. Na verdade, o maior estímulo é o sentido de missão ou propósito.
  6. O mito do criativo solitário. A criatividade é em muitos momentos um esforço de equipa. Se é verdade que em alguns sectores artísticos a criatividade exige muita solidão, o mesmo não é aplicado quando falamos de design, engenharia, negócios, onde trabalhar em equipa permite exponenciar o potencial criativo. As melhores ideias surgem do encontro de duas ou mais mentes.
  7. O mito do brainstorming. Não são poucos os defensores das discussões de grupo para procurar ideias ou soluções de problemas. Brainstorm é uma maneira eficaz de compartilhar ideias e criar soluções para os problemas (vale lembrar que muitas das invenções e inovações surgiram da combinação de ideias existentes), mas é a maneira errada de ter as primeiras ideias e não deve ser o final do processo criativo.
  8. O mito da coesão. Este mito está relacionado com a noção de que a inovação se alcança sem crítica e com consensos. Mas a verdade é o oposto, é preciso conflito e dissidência para despertar as melhores ideias.
  9. O mito das restrições. Outra ideia comum é que a restrição limita a criatividade e que temos de pensar fora da caixa. Mas, diz a sabedoria popular que «a necessidade aguça o engenho» e no caso da criatividade, quando mais apertada é a caixa, melhor terá de ser a ideia para se libertar dela.
  10. O mito da ratoeira. A crença neste mito é construída na suposição que quando se tem uma ideia criativa ou um produto inovador, as pessoas à volta irão entender o seu valor e qualidade e abraçá-la de boa vontade. Steve Jobs, em 2010, durante o lançamento do iPad, disse que a ideia era lançá-lo em 2007, antes do iPhone. Mas, segundo ele, “o mundo não estava preparado para isso”.
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