Não assuma a crítica como um ataque pessoal

Sessões de crítica a propostas criativas é algo com que todo o designer tem de lidar diariamente — apresenta o trabalho, escuta os comentários, e se tudo correr bem como se deseja, aprende com o feedback.

Escrito com ❤️ a

6 de Março, 2018

Sei que estou a entrar em terreno pantanoso. Este é provavelmente um dos temas mais difíceis de lidar pela comunidade criativa. Afinal, ninguém gosta de ver o seu trabalho criticado, especialmente quando são utilizadas apreciações absolutamente subjetivas.  

Mas sessões de crítica a propostas criativas é algo com que todo o designer tem de lidar diariamente — apresenta o trabalho, escuta os comentários, e se tudo correr bem como se deseja, aprende com o feedback

Na verdade, sessões de crítica, ou de avaliação se preferimos, são parte integrante de uma qualquer metodologia de design: 1) definir o problema; 2) apresentar uma solução; 3) testar; 4) avaliar; e assim sucessivamente, até se chegar ao resultado pretendido. Deste modo ajuda todos os intervenientes do projeto a estarem alinhados quanto ao problema e à solução que se procura.  

Mas, alguns designers sentem-se genuinamente ofendidos ao escutar um comentário depreciativo ou sugestivo sobre o seu trabalho. Tomam a crítica como um insulto! E no impulso de querer rebater todos os comentários e defender com afinco a sua ideia, o designer perde-se em argumentos ilógicos ou por vez tão ou mais subjetivos como aqueles que lhe apresentaram. 

Não estou a atirar pedras a ninguém, até porque eu próprio tenho telhados de vidro. Saber como receber e reagir ao feedback faz parte do trabalho do designer, e, na minha opinião, é um factor distintivo entre um bom ou mau profissional, de um amador ou de um experiente. 

Nos últimos anos tenho investido em aprender a identificar e filtrar má crítica ou comentários de fraca qualidade, mal formulados ou destrutivos. E é relativamente fácil categorizar este tipo de crítica, pois habitualmente têm as seguintes características: 

  • Mau feedback foca-se na solução e não no problema. Frases como «devia fazer isto ou aquilo» ou «deveria ser assim ou assado» indicam que o seu interlocutor está a precipitar-se para a solução sem antes refletir o suficiente sobre o problema. Assim, pergunte qual é o problema ou o que está errado na proposta e não pela solução que imaginada.   
  • Mau feedback incluí gostos e desgostos pessoais. «Ah, eu gosto muito!» ou «Ah, não gosto nada!». Clássico, certo?! A subjetividade deve permanecer fora da discussão. Deixe claro esta regra. E quando começarem os discursos sobre gostos pessoais, traga a discussão de volta para o problema e o que aquela proposta tenta solucionar.  
  • Mau feedback é dirigido ao designer e não ao design. Se começar a escutar frases como «o seu design», «o seu layout» ou «a sua escolha cromática», é sinal de que algo está errado. Não aceite essa pessoalização. A melhor forma de sair desse tipo de feedback nocivo é explicar que as escolhas e soluções apresentadas vão de encontro ao melhor interesse da marca ou da organização e que não são escolhas individuais. 

Uma boa forma de evitar mau feedback é educar os seus interlocutores. Nos últimos dois anos tenho-o feito ativamente, sem nenhum tipo de pudor. Quando alguém se dirige a um trabalho meu nos termos de «está feio» ou «não gosto», faço de imediato o exercício de recapitular os objetivos da proposta – ou que problema tenta resolver –, em que momento se está no processo e que respostas se deseja encontrar naquela sessão de avaliação. Com esta metodologia procuro afastar a discussão de conceitos subjetivos como gosto ou até experiências passadas, que até podem ser relevantes, desde que devidamente contextualizadas. Por exemplo, frases como «um dia comi no MacDonalds e não gostei; por isso todos os hambúrgueres são maus» não servem para a discussão.  

Por outro lado, quando recebermos bom feedback não quer dizer que tenhamos que executar de imediato aqueles pedidos ou sugestões. Por muito bom ou válido que seja o feedback é fundamental que seja primeiro discutido antes de ser implementado. É comum – eu fi-lo muitas vezes – entender que o feedback é como um plano de ação a ser executado de imediato sem lugar a nova discussão e reflexão sobre as implicações aos projeto. Já assisti a sessões de feedback com observações absolutamente válidas, mas que, sendo implementadas, desviariam o alvo da resposta ao problema que estava em cima da mesa. 

Numa sessão de feedback, recomendo que:  

  • Escute mais do que fala. Esta é a regra número um para numa sessão de feedback. Nós designers, nem sempre sabemos fazer isso. Por vezes, para fazermos valer o nosso ponto de vista esgotamos todas as palavras do dicionário. Por isso, recomendo que escute com vontade, prestando a melhor atenção ao que está a ser dito.  
  • Certifique-se que compreendeu. A linguagem é complexa. Nem sempre dizemos aquilo que o outro compreende. Por isso, não se sinta complexado por pedir esclarecimentos, por repetir determinada pergunta, por pedir que explique melhor, pois é desse modo que irá despistar qualquer mal-entendido. Por outro lado, mostra que está interessado em compreender o problema e encontrar a solução.  
  • Tome notas do feedback. Este gesto mostra que está interessado no que está a escutar ao mesmo tempo que irá ajudá-lo a lembrar-se do que foi dito dias depois. Além disso, ver as palavras escritas cria em si um impacto completamente diferente.  
  • Faça cenários e crie narrativas com personagens representativos. Quando a discussão se tornar demasiado pessoal, utilizar a narrativa e personagens representativos pode ajudar a levar a discussão para o caminho certo. Por exemplo, pode-se iniciar a discussão perguntando: «Imagine que o José viu o anúncio e entrou no site. Tendo por base os seus interesses, onde é que ele clicaria primeiro?» Note, colocando assim a pergunta não dá espaço para opiniões pessoais.  
  • Trabalhe para o consenso. Sim, escrever é fácil! Difícil será pôr em prática. Mas se não tentar, não saberá o resultado. É comum acontecer numa sessão mais alargada de feedback duas pessoas com opiniões diferentes sequestrarem toda a atenção, por vezes focadas em pontos que até não são os importantes para o momento. Nesses casos, convém ao designer alargar a discussão aos restantes grupos ou pedir que o assunto do debate seja aquele que foi previamente acordado. Trabalhar para o consenso não é agradar a gregos e troianos. É fazer o grupo concordar que aquela decisão é a que beneficia mais o projeto e as pessoas a quem se dirige. 

 Lembre-se que o trabalho não termina após a sessão de feedback. Logo após é necessário refletir sobre os comentários que escutou e voltar ao ponto 1 da metodologia do design: definir o problema. Recomendo que dê tempo para analisar e absorver todos os comentários e não começar logo a trabalhar (claro, quando o prazo permite). 

Saber tornar o feedback como crítica construtiva será benéfico para a evolução do projeto pois permitirá conhecer falhas que não foram imaginadas e tornar todo o projeto muito mais consistente e forte. Além disso, torná-lo-á um designer mais maduro e fácil de trabalhar.

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