O valor da crítica

A crítica é muitas vezes mal vista, sendo quase uma espécie de tabu, uma palavra maldita, com fama de castradora e geradora de conflitos. Mas, para criar seja o que for, é necessário ser, primeiramente, um bom crítico, pois sem o processo crítico ficamos sem perceber o que está errado, a faltar ou que não funciona.

Escrito com ❤️ a

27 de Fevereiro, 2019

Há poucas semanas li a entrevista que o conhecido produtor de cinema Paulo Branco deu ao jornal on-line Observador. De toda a entrevista destaquei uma frase a propósito da crítica. Disse assim o entrevistado:

Isso não é crítica, é expressar um gosto pessoal. Pode partilhar esse gosto em público, mas isso não faz de si um crítico. Isso é uma relação puramente subjetiva e intuitiva com o filme. A arte não é assim. A crítica não é apenas uma questão de gosto, tem de ser fundamentada e deve explicar o que é que uma obra traz de novo. O que é que interessa nas expressões artísticas? Aqueles que trazem algo novo.

Tenho escrito muito sobre o papel da criatividade na resolução de problemas e no desenvolvimento de soluções. Mas tão importante como a criatividade no processo de inovação é também a crítica, que exerce um papel extremamente valioso na identificação de problemas e avaliação de soluções.

A crítica é muitas vezes mal vista, sendo quase uma espécie de tabu, uma palavra maldita, com fama de castradora e geradora de conflitos. Mas, para criar seja o que for, é necessário ser, primeiramente, um bom crítico, pois sem o processo crítico ficamos sem perceber o que está errado, a faltar ou que não funciona. A crítica é um instrumento fundamental para o aperfeiçoamento de qualquer projeto e ninguém está imune a ela.

Agora, o que é importante entender na crítica é que ela não está em nada relacionada com o gosto pessoal. Aliás, para uma crítica ser efetiva e de valor tem de estar completamente desvinculada do gosto pessoal. Se entre os críticos profissionais ou especializados deveria ser assim – e aparentemente, segundo o entrevistado, no mundo do cinema não é – imagine quando lidamos com a crítica pouco ou nada especializada, e em muitos casos sem fundamento, de um cliente que não vai além do «Gosto» ou «Não gosto».

Um designer, um programador ou um escritor não cria um projeto num vácuo. Qualquer profissional precisa de aprender a tomar o feedback dos seus pares, clientes e chefes para resolver um problema específico. Uma sessão de crítica, quando bem feita, dá a oportunidade de se detetar problemas novos e de se discutir outras soluções ainda por explorar. É aqui que ela se torna valiosa num processo de inovação ou criação.

É natural do ser humano querer a aprovação do que faz – sentimo-nos automaticamente com a autoestima em alta quando alguém elogia o trabalho – e é por isso que se teme a crítica. Eu próprio fico sempre de nervos em franja quando tenho de apresentar ou defender uma ideia. Mas como dizia, quando recebemos uma crítica bem estruturada e fundamentada que nos faz ver o problema (ou a solução) com outros olhos, todo o projeto sai a ganhar.

A questão está em saber suportar bem a crítica. É comum nos criativos (e não só!) haver aquela reação à crítica de que os outros não percebem nada. Às vezes é assim. Mas também é verdade que quando somos desafiados a repensar o nosso trabalho e fazemo-lo com espírito aberto o resultado final é muito melhor.

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