Software: está disposto a pagar?

O mercado de software e jogos evoluiu imensamente nos últimos 30 anos. A grande revolução foi o acesso a milhões de aplicações gratuitas que existem hoje por esta Internet fora, aliada à descida do preço do software. Essa democratização do acesso a software legal é boa para o consumidor, mas não deixa de ter os seus lados perniciosos.

Escrito com ❤️ a

18 de Março, 2019

Recordo-me, como se fosse hoje, quando o meu pai comprou o primeiro computador pessoal lá para casa em 1992. Era um Schneider 386SX, com processador a 16mhz, 2 Mb de RAM e 40 Mb de disco. Uma máquina. Trazia o MS-DOS como sistema operativo e mais tarde instalamos o Windows 3.1.

Numa época de pré-Internet conseguir um software novo era uma verdadeira odisseia. Tivéssemos os contactos certos entre os amigos e colegas de escola e era fácil conseguir a última versão de um determinado jogo ou programa que desejássemos. Depois, era todo um ritual para copiar os programas de disquete para disquete (os mais antigos lembrar-se-ão do comando c:\>diskcopy a: a:).

Confesso que à época não tinha grande consciência do preço daqueles jogos ou programas e nem sequer sabia a origem deles. Mais tarde ouvi histórias de lojas de informática que compravam um exemplar e depois vendiam cópias piratas. Não sei se era assim ou não, mas as disquetes lá circulavam de mão em mão e de cópia em cópia!

O mercado de software e jogos evoluiu imensamente nos últimos 30 anos. Nos anos 80 e 90 a indústria de software era sobretudo dirigida a grandes empresas ou para profissionais de uma área específica. Geralmente eram programas caros e mesmo aquele tipo de software para consumo em casa – tipo CD-ROM interactivo – eram, ainda assim, pouco acessíveis para o utilizador comum.

Consegue imaginar o esforço de uma empresa de software para distribuir o seu produto até à democratização da Internet e da banda larga? Além dos custos de produção do programa em si – especificamente desde a ideia ao desenvolvimento do produto – havia todo o custo de distribuição, desde as cópias em disquete ou CD-ROM, embalagem e colocação nas lojas para venda. Não era por acaso que muitos programas eram vendidos a preços elevados e que a pirataria, especialmente entre clientes domésticos, fosse uma prática comum. Até porque as alternativas de software mais baratas pecavam pela falta de qualidade.

Mas como dizia acima com a democratização da Internet e da banda larga toda a indústria de software mudou, sobretudo com o aparecimento das lojas de aplicações como a APP Store da Apple ou a Google Play. Com estas novas lojas surgiram conceitos diferentes como o software completamente gratuito sustentado com publicidade, freemium ou Software as a Service (SaaS).

Mas a grande revolução foi o acesso a milhões de aplicações gratuitas que existem hoje por esta Internet fora, aliada à descida do preço do software, deixando até de fazer sentido utilizar cópias piratas com todos os riscos de segurança que elas acarretam (não quero dizer que a cópia ilegal tenha acabado em todos os segmentos de software).

Essa democratização do acesso a software legal é boa para o consumidor. Mas tem dois lados perniciosos:

  1. A ideia de que todo o software tem de ser gratuito ou quase de borla
  2. E se não se ganha dinheiro com a venda do software, então o dinheiro tem de vir de outro lugar.

Para quem está no negócio de criação de software – seja empresarial ou doméstico – tem hoje de lidar com esta ideia complicada que é as pessoas estranharem pedir-se dinheiro por uma aplicação. Eu vejo isso diariamente em fóruns de utilizadores de WordPress por exemplo. O WordPress é uma aplicação gratuita que permite a criação de websites dinâmicos com enorme facilidade e que tem à sua volta uma comunidade imensa que desenvolve sobre esta plataforma. Há todo um negócio de milhões de euros à volta do desenvolvimento e venda de templates e plugins, sendo que os preços variam entre umas poucas dezenas até às centenas de euros. Mas há também milhares de templates e plugins gratuitos que cumprem muito bem a sua função e conhecendo-os bem, consegue-se montar todo um projeto sem ser necessário escrever uma linha de código.

E é aqui que o tema se torna caricato e problemático: é que a ideia comum sobre o WordPress é que é tudo gratuito e que nunca é necessário pagar por nada. Por isso não é raro ver-se publicações do género: «tenho um cliente que precisa disto e daquilo. Podem recomendar um template e mais um plugin X e Y de graça?» Habitualmente penso logo com os meus botões: «mais um projeto adjudicado sem primeiro ter havido uma avaliação minuciosa e orçamentado abaixo do preço».

Nos meus projetos de WordPress tanto uso plugins pagos como gratuitos; não me choca que ambos coexistam lado a lado. Chocam-me as pessoas que pensam só que deveriam existir gratuitos.

E para concluir, se a empresa que desenvolve o software não ganha dinheiro através dele, então o dinheiro vem de outro lugar. Normalmente dizem-nos que a receita vem da publicidade. Mas será mesmo assim, especialmente depois de todos os escândalos do Facebook, por exemplo? A realidade é esta: se numa empresa de software o produto não é o software em si, então o produto é o utilizador. Ou seja, é na recolha de dados do utilizador (o que ele consome na internet, em que sites navega, quais os seus interesses, que contactos tem, onde ele está e onde tirou as fotos, só para dar alguns exemplos) e na sua comercialização que sustenta todo o investimento no software.

Não sabemos bem o que o futuro nos reserva. Até podemos chegar ao cúmulo de todo o software ser gratuito e detido por meia dúzias de empresas grandes que encontram formas alternativas de sustento e controlo. O certo é que alguém terá de pagar e no modelo actual quem paga de forma indireta é o consumidor com a perda de privacidade.

E mesmo em software empresarial há que se vencer a relutância de se pagar o valor apropriado, especialmente quando esses programas são parte integrante da redução de despesas e aumento de produtividade. Não faz sentido comercializar-se esses produtos sem estarem atrelados à projeção de lucros daquele negócio.

Quer levar estas reflexões consigo?

You've Got M@il: reflexões sobre design, criatividade, carreira e negócios

Se gostou deste artigo, vai querer mergulhar em You’ve Got Mail. Este livro nasceu da vontade de reunir num só lugar as ideias e reflexões que tenho partilhado ao longo dos anos — sobre criatividade, tecnologia, estratégia, carreira e tudo o que acontece quando estas áreas se cruzam.

Mais do que uma compilação de textos, You’ve Got Mail é um convite à leitura com tempo: para sublinhar, repensar caminhos e voltar sempre que precisar de foco ou inspiração.

Outros artigos