Agora, pedem-nos para desconfinar

Que é como quem diz, voltar ao local de trabalho. Fará Sentido?

Escrito com ❤️ a

2 de Junho, 2020

É difícil fugir ao tema do Coronavírus. Afinal, ele continua a ocupar boa parte das manchetes dos jornais e do tempo dedicado nos telejornais e programas informativos. Ademais, continuamos a sentir as consequências que esta pandemia trouxe aos quatro quadrantes mais importantes da nossa vida: pessoal, familiar, social e profissional.

Tem sido repetido à saciedade que o mundo não mais é o mesmo em relação ao que conhecíamos antes de nos termos fechado em casa. E de facto não é! Basta observar como esta crise pandémica veio acelerar um conjunto de mudanças sociais e profissionais, enquanto introduziu novos desafios e complexidades.

Permita-me recuar um pouco. Precisamente a 7 de Janeiro de 1983. Esta é a data do vídeo de demonstração do computador Apple Lisa.

Logo na introdução, escutamos o seguinte diálogo entre dois executivos:

– Sabes, eu fiz toda a apresentação ainda esta manhã…
– Ah, claro, puseste todo o teu departamento a trabalhar nisto, certo? – Ironizou a colega.
– Não, pelo contrário. Utilizei o meu novo computador pessoal Apple Lisa.

E ao longo de um quarto de hora vemos a demonstração das potencialidades do uso daquele computador ao gerir projetos e tarefas, escrever relatórios, atualizar o orçamento com uma folha de cálculo e a criar uma apresentação.

Chegados a 2020 e foi preciso um microscópico vírus para acender o rastilho da transformação digital e introduzir mudanças na forma de trabalhar que há décadas já estão disponíveis, como por exemplo, a videoconferência ou a partilha de ficheiros por cloud, que nos permitem trabalhar mais e melhor, mas com muito menor esforço e com ganhos claros de produtividade.

2020 não é assim tão diferente de 1983. Quando uma organização abraça a transformação digital, os seus colaboradores – que são a sua força motora – são capazes de criarem mais e de aumentarem o valor do seu trabalho. Fazem-no melhor, mais rapidamente, com menos erros e menor esforço.

O estado de emergência ao levar ao confinamento domiciliário e à adoção do teletrabalho por parte as empresas, veio provar que muitas pessoas já estavam há muito preparadas para tirar partido de todas as ferramentas colaborativas e continuarem a desenvolver o seu trabalho de forma autónomo e responsável.

O confinamento para muitos significou o grito do Ipiranga. Provou que a microgestão a que estão muitas vezes sujeitos é a razão da sua baixa produtividade e do cansaço e desmotivação que carregam para casa a cada final de dia. Mostrou que foram capazes de encontrar formas de conciliar o trabalho com a família, mesmo em condições muito desafiantes em que as crianças estavam privadas da escola. Também evidenciaram que o open space não se traduz em mais colaboração ou desempenho, mas pelo contrário, que contribuem para o aumento da ansiedade e da distração.

Estes dois meses deixaram em aberto o futuro dos escritórios. Se tivermos em conta que grandes empresas com a Google ou o Facebook (são todas tecnológicas porque não encontrei notícias de empresas de outras áreas) já decidiram que os seus colaboradores poderão trabalhar em casa até ao final do ano, será natural este movimento ganhar força e ser cada vez mais usual.

No meu ponto de vista, muitas empresas – grandes ou pequenas – vão agora começar a questionar-se da necessidade dos enormes custos que os escritórios acarretam para si. Se as empresas adotarem modelos de trabalho em regime de três dias em casa e dois no escritório, significa que necessitarão de espaços menores e que permitam a rotatividade de pessoas. Poderão desse modo canalizar os recursos poupados para outras áreas como a adoção de mais e melhores ferramentas colaborativas ou inovadoras.

Este estilo híbrido pode proporcionar um maior controlo sobre o horário de trabalho e pode também – dependendo da modalidade presencial exigida – reduzir o tempo e os gastos de deslocação para o escritório.

A transformação tecnológica tem de significar duas coisas: 1) as pessoas trabalham mais e melhor em menos tempo, 2) e por isso não precisam de cumprir um horário rígido. Ou, em último caso, não cumprir horário de todo, desde que o trabalho seja cumprido (quando digo não cumprir horário, significa que poderão trabalhar de modo assíncrono). A transformação digital não pode só passar pela tecnologia, tem de estar intimamente ligada com a liderança e os modelos de tralhado das empresas e organizações.

E aqui socorro-me da crónica que o Henrique Raposo escreveu na Renascença. Há um ponto em que estou de acordo e outro em desacordo.

Vou começar pelo ponto em que estou em desacordo. Diz ele que «o teletrabalho permite a desumanização das relações. É difícil despedir uma pessoa que se conhece cara a cara (e deve ser difícil). Não é difícil despedir uma pessoa que não se conhece, uma pessoa que não passa de um avatar do zoom ou do webex, uma pessoa que é só um endereço de mail». O teletrabalho em si não desumaniza ninguém, quem o faz são as pessoas que compõem a empresa ou a organização. Não é por haver teletrabalho que surgiram chefias tóxicas e abusivas ou colegas maldosos, interesseiros e de mau caracter. E não é o ZOOM que torna os despedimentos mais fáceis (do ponto de vista emocional), pois o que não faltam são histórias de pessoas a quem lhes foi pedido para não irem mais trabalhar por SMS. E quanto à desumanização das relações, o que é necessário é olhar para os melhores casos existentes no mundo e seguir-lhes o exemplo, como a GitLab que orgulhosamente se gaba de não ter uma sede para albergar os seus 1200 colaboradores, pois todos trabalham remotamente em mais de 60 países.

Onde concordo com o Henrique Raposo é que, com ou sem trabalho remoto, «a solução passa por sairmos do trabalho às quatro ou cinco, e não às seis, sete ou mesmo oito». Eu diria melhor, que o ideal seria pudermos ajustar o nosso tempo de trabalho consoante a nossa agenda social. Nesse sentido, se os portugueses não mudarem de comportamento, não será o trabalhar a partir de casa que conseguirão jornadas mais curtas. E aqui volto ao vídeo de 1983. O que ele nos mostra é que com formação e conhecimento se pode produzir muito mais. As organizações não podem só enviar as pessoas para casa e esperar que elas comecem miraculosamente a produzir mais porque estão num ambiente mais confortável, têm a obrigação de investir em formação, em ensinar cada colaborador a tirar partido da tecnologia.

Num ensaio recente, publicado no jornal Observador, foi calculado que, em Portugal, de entre os mais de 2,8 milhões de trabalhadores e 200 profissões analisados, apenas 9% destas profissões têm um potencial elevado de adaptação ao teletrabalho. Enquanto isso, 26,4% têm um potencial significativo, mas apenas parcialmente. Estes números não deixam de ser assustadoramente baixos, pois revelam o quão atrasadas estão as empresas na adoção das mais recentes tecnologias.

Se esta crise trouxe alguma coisa de bom é a possibilidade de acelerar a transformação digital e o trabalho remoto. Provavelmente, muitas das pessoas que não têm desejo de voltar ao seu local de trabalho será menos por medo do vírus, mas mais porque gostariam de manter-se a trabalhar por casa, pois descobriram que conseguem sentir-se mais produtivas, felizes e realizadas.

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