Paulo Proença ― O Designer que quer tempo para fazer um bom trabalho

Paulo Proença é um designer com um impressionante currículo e que já teve a oportunidade de trabalhar em praticamente todas as grandes empresas de design em Portugal.

Escrito com ❤️ a

21 de Maio, 2016

Naquele dia, ao navegar pelo LinkedIn, dei o devido valor à existência das redes sociais, pois acabara de encontrar um antigo amigo, cujo rasto tinha perdido há vários anos. Se a internet tivesse sido inventada só para aquele momento, para mim já teria valido todo o investimento e investigação!

Conhecemo-nos, no Verão de 1998, num estágio que me havia sido atribuído pela Escola, no final do 12º ano, numa conhecida empresa de materiais de construção radicada na Margem Sul ― a Assicomate ― onde iria aprender a desenhar e orçamentar cozinhas e roupeiros por medida.

O orientador desse estágio foi o Paulo Proença, que à época estudava no Instituto Politécnico de Tomar, na Licenciatura em Design e Tecnologia das Artes Gráficas. O estágio durou apenas 3 meses, mas acabámos por trabalhar juntos por mais de um ano.

De lá para cá, reencontrámo-nos mais uma ou duas vezes, mas há mais de 10 anos que não tínhamos notícias um do outro. Por isso havia expectativa neste reencontro e, no final, o desejo de que o almoço tivesse durado mais do que aquela hora em que estivemos à conversa.

O percurso

O percurso profissional do Paulo Proença é, de certo modo invejável, tendo em conta que teve a oportunidade de trabalhar em praticamente todas as grandes empresas de design em Portugal, entre elas a Novo Design ― mais tarde Brandia ―, Euro RSCG – hoje Havas ―, Publicis, Santafé Associates, só para nomear algumas.

Mas esse percurso começou a traçar-se logo cedo, no final do 5º ano da licenciatura, quando teve de procurar um estágio profissional, tomando então a decisão de tratar ele mesmo da escolha da empresa onde começar a sua carreira. A empresa era uma das mais importantes agências de design em Portugal ― a Novo Design ―, capaz, nas palavras do próprio, de «competir com o que de melhor se fazia no estrangeiro e que primava pelo rigor, qualidade e consistência» ― 3 dos valores que o Paulo considera basilares em qualquer projeto criativo.

Esse arrojo de desejar estagiar nessa agência exigiu persistência e resiliência, pois só ao fim de bastante insistência é que foi recebido para uma entrevista.

Relata que aí teve oportunidade de receber a orientação de excelentes mentores que o ajudaram a expandir os horizontes e a criatividade. Mas explica que isso se deveu a uma atitude pró-ativa, de superação do receio de se aproximar e oferecer-se para participar nos projetos em que estavam a trabalhar.

O caminho estava aberto para experiências noutras empresas ― e foram várias, desde grandes agências de renome a outras mais pequenas, umas positivas, outras nem tanto, mas sempre procurando dar o melhor de si e ao projeto em que estava envolvido.

Parece-me que o caso do Paulo é coerente com outros designers que conheço e que vão trabalhando de agência em agência ao longo da carreira, embora os motivos de cada um possam ser os mais variados. Perguntei-lhe se, no caso dele, essa variedade de experiências lhe trouxe vantagens à carreira. Explicou-me que teve contacto com métodos de trabalho alternativos, aprendendo a orientar-se e adaptar-se melhor a cada circunstância, ao mesmo tempo que granjeou uma rede de contactos de outros excelentes profissionais, graças à sua competência, criatividade, rigor e ética de trabalho.

Como será expectável, um currículo tão variado permitiu-lhe trabalhar em quase todas as áreas do design de um grande leque de empresas e marcas, que vão desde as maiores, como as de telecomunicações, seguros, bancos, até às menores, como as de restaurantes, bares ou hotéis.

A vida numa agência de design

Confesso que tinha grande curiosidade em ouvir na primeira pessoa o relato da vida de um profissional no ambiente de uma grande agência de design. Tendo em conta que não passei por essa experiência, tinha a expectativa de ver confirmados alguns dos mitos que se ouvem em relação a esse tema, como a falta de horários, um nível brutal de stress e de um quase abdicar da vida pessoal pelo trabalho.

O Paulo fez notar que para se trabalhar numa grande agência de design é necessário estar preparado mentalmente e perceber que, provavelmente, ter-se-á de fazer cedências na vida pessoal, pois a conciliação do trabalho e vida social não é fácil.

Começou por explicar que o tempo é algo abstrato e a relação com ele é bastante relativa, pois pode-se ter uma grande ideia rapidamente e a sua materialização e justificação exigirem tempo suficiente para ser aprovada, ou noutros casos é preciso um tempo mais alargado para a ideia surgir ou para ajudar a melhorá-la de forma a corresponder às expectativas do cliente.

Num trabalho criativo o tempo é importantíssimo e está implícito em todas as etapas do projeto, pois é necessário para investigar, preparar e executar a ideia. Ao ritmo a que se trabalha, em muitas das agências de design, estes prazos são muito curtos, o que provoca uma enorme pressão sobre o designer e restantes membros da equipa.

Recordou a época em que dirigia entrevistas de emprego onde confrontava os candidatos com essa realidade, não para assustar ou amedrontar, mas para prepará-los e alertá-los que o ambiente podia ser duro. Porém, falando do seu exemplo, disse que sempre lutou por um horário digno de trabalho, chegando cedo e pedindo o tempo que achava necessário para produzir «um bom trabalho» e sair a horas, embora reconheça que essa prática não é fácil de impor.

Mesmo assim, lá foi contando alguns episódios em que teve de trabalhar noite dentro para ser capaz de concluir todo o projeto, umas vezes pela quantidade de trabalho envolvido, outras porque o projeto estava a seguir um rumo errado e era necessário corrigir a rota.

Mas o tempo não são só as noitadas, mas o lidar com a rejeição da ideia e do projeto. Quantos conseguirão sobreviver à experiência de se terem dedicado um conjunto de horas a desenvolver uma ideia, ela ser rejeitada e ter de voltar tudo ao início? Uma vez. Duas. Três. Como superar esse sentimento de fracasso? O Paulo deu a entender que vamos melhorando com o tempo, com a experiência e com confiança em nós mesmos.

Mas se a vida numa agência pode ser assim tão dura, o que faz tantos continuarem? O Paulo mostrou-me um lado da vida de uma agência que nunca havia pensado.

Explicou que há um lado glamoroso e apelativo em trabalhar numa grande agência, onde o ambiente pode ser sedutor, as pessoas se vestem e cuidam bem, estão a par das últimas tendências da moda e da tecnologia, que têm conversas e uma cultura que nos faz sentir mais interessantes que as restantes. E isso, para muitos, é cativante.

Por outro lado, passa-se muito tempo envolvido com estas pessoas, que são aquelas que estão do nosso lado na pressão do dia a dia, que conhecem de perto as dificuldades do trabalho, que partilham o mesmo espaço nas longas horas da jornada – por vezes por 24, 48 ou 72 horas seguidas – sendo que a ligação emocional vai crescendo. De colegas, tornam-se muitas vezes amigos íntimos, fazendo esquecer os restantes amigos que ficam de fora do universo do trabalho.

Essa explicação parece coerente com o que se passa noutros aspectos da nossa vida: até podemos identificar qual o problema e aquilo que não nos agrada, mas isso conhecemo-lo bem, já a mudança implica o desconforto do desconhecido e da adaptação. Somos humanos e de preferência relacionamo-nos com pessoas que têm o mesmo estilo de vida, a mesma cultura e as mesmas ideias que nós.

O Designer que deseja fazer um bom trabalho

Não gosta de falsas modéstias, argumentando que quem nivela a sua vida por baixo não pode granjear algo grandioso, e por isso afirmou que sempre lutou para estar entre os melhores e ser reconhecido como tal. Isso consegue-se com uma atitude de grande empenho, dedicação, força de vontade para superar desafios, aliando a experiência e capacidade de leitura das necessidades e expectativas do cliente.

Conta o caso de um dos trabalhos mais marcantes da sua carreira, o rebranding da TEFAF, a maior feira de arte do mundo.

Descreve-se como um designer que procura o minimal-intemporal, inspirado nas escolas de design nórdicas, onde o conceito se traduz visualmente sem artifícios, sem ruído ou maquiagem.

Num ambiente onde nos podemos sentir esmagados pela pressão de criarmos algo novo e que corresponda às expectativas, o Paulo contou que tem uma rotina simples de passagem entre projetos e que o ajuda a arejar a mente e encontrar espaço para as novas ideias. Por norma, após concluído o projeto que tem em mãos, arruma o seu espaço de trabalho, arquivando os ficheiros que utilizou, limpando a secretária e arrumando os papéis e rascunhos. É quase um ritual de luto para logo a seguir estar disponível para o próximo desafio. E quando tem margem de tempo, após o ritual de limpeza, não começa logo a trabalhar, mas procura, nem que seja por umas horas, afastar-se mentalmente do trabalho, permitindo, assim, manter o cérebro e os sentidos alerta para o que o rodeia, absorvendo referências visuais que poderão servir de inspiração.

Mas o trabalho que mais o realizou, que o enche de orgulho, são as amizades que semeou em todos os locais por onde passou e o reconhecimento que lhe dão pelo profissionalismo, criatividade e ética de trabalho.

Tempo. Bom trabalho. São dois conceitos com que todo o designer lida no dia a dia. Tempo para ter a ideia e concretizá-la – umas vezes ao som de um «Eureka!», noutras, «espremendo o cérebro até doer». E qualquer designer luta e esforça-se por fazer um bom trabalho, pois é a sua arte que está em causa.

Tempo e bom trabalho é tudo o que um designer deseja.

Paulo Proença

Designer

https://www.behance.net/PauloProenca/

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