2020 ficará para a história como um dos anos económicos mais difíceis para a maioria das empresas portuguesas. Grandes, médias, pequenas ou microempresas – na sua vasta maioria – foram de alguma forma afetadas pela crise do Coronavírus. É certo que outras foram capazes de prosperar como o caso de empresas de comércio eletrónico ou de entregas ao domicílio, mas isso é o que se chama «estar no local certo à hora exacta» (não desvalorizando, obviamente, o mérito).
Mesmo neste cenário árduo houve gente que não cruzou os braços, tenha sido pela necessidade ou pela oportunidade, e constituíram ou expandiram os seus negócios, investiram em inovação, contrataram mais pessoas, desenvolveram novos produtos ou serviços, etc.
Não bastasse a crise pandémica, sabemos bem como a burocracia em Portugal pode tornar a vida num inferno para qualquer empresário (ou para qualquer pessoa que ouse pisar um dos 92 090 km² que constituem o território nacional). Deu algum furor na imprensa portuguesa o desabado do fundador da Cloudflare, Matthew Prince, que acusou o Governo de «incompetência» por causa da burocracia e ameaçou «parar de investir» no país.
Esta é uma empresa multimilionária apoiada, com certeza, pelos melhores escritórios de advogados e consultoras, que está em contacto direto com os dirigentes políticos portugueses e ainda assim, num ato de desespero, sente que a única forma de desbloquear a burocracia é queixar-se publicamente no Twitter!
Agora imagine-se o empresário anónimo. Aquele que quer abrir um pequeno estabelecimento comercial e de repente tem de reservar toda uma parede para forrar com papeis burocráticos de licenças e outras informações para operar na legalidade. Licença para o toldo, para a venda de bebidas alcoólicas, para a esplanada, para ter o rádio ou a televisão ligada ou os famosos mapas de férias e de remunerações! Um pequeno empresário sem o apoio de juristas ou consultores tem de aprender em muito pouco tempo toda a teia burocrática que asfixia ou destrói qualquer vontade de investir num negócio.
A voracidade pela burocracia é tanta que se criam leis e regulamentos que em nada servem para verdadeiramente proteger as pessoas. Veja-se o exemplo da regulamentação dos serviços de transporte da UBER ou similares: aquela identificação de TVDE no vidro dos carros protege em alguma coisa o passageiro? As 50 horas de formação obrigatória para os motoristas serve para melhorar em alguma coisa a condução ou o civismo na estrada? O suposto limite de horas de condução melhora a segurança dos motoristas e estes deixaram de ser pressionados a conduzirem mais tempo para além do recomendado?
O que toda essa teia burocrática criou foram mais taxas, taxinhas e coimas, e mais gente (muito mais gente!) a sugar os já parcos recursos financeiros, sem, em troca, assegurarem uma efetiva melhoria do serviço ou proteção dos clientes ou dos motoristas. Criaram-se assim, de forma artificial, mais uns empregos para gente que nada produz de valor acrescentado do que emitir umas licenças e fiscalizar uns papeis!
Recorda-se do famoso sketch dos Gato Fedorento, O papel. Qual papel?
É por isso que há que aplaudir as corajosas pessoas que decidem iniciar um negócio! São verdadeiros guerreiros numa batalha com armas muito desiguais: são MacGyvers com o seu canivete suíço a enfrentarem o temível Terminator T-1000! Vamos apoiar os pequenos empresários. Especialmente aqueles que nos estão próximos, que nos servem bem e que sabem o nosso nome e perguntam pela família!